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Os museus frente aos confinamentos: quais medidas tomar?

Os “novos museus” para um “novo normal”: possibilidades de olhares diferenciados

31/07/2020 16h00 Atualizada há 1 semana
Por: Douglas Liborio
Com a pandemia, diversos museus ao redor do mundo tem investido em divulgação de seus acervos de forma virtual. (Foto Divulgação/MASP).
Com a pandemia, diversos museus ao redor do mundo tem investido em divulgação de seus acervos de forma virtual. (Foto Divulgação/MASP).

Muito mais do que “fechar” uma década, o ano de 2020 e o advento da Covid-19 levaram ao fechamento brusco das principais atividades da vida coletiva.O confinamento, as restrições às formas de aglomeração e as quarentenas deixaram (e deixarão) marcas para se redefinir as próximas décadas e as futuras gerações. O trauma, a superação e o recomeço a tropeços são alguns dos termos que buscam definir um possível “novo normal” no pós-pandemia.

No âmbito cultural, algumas das instituições que mais sofreu o impacto das medidas de fechamento imediato foram os museus. Num país como o Brasil , com uma deficiência crônica de investimentos, além da desigualdade de distribuição geográfica das instituições museológicas, os desafios de adaptação se tornam a pauta diária, mesmo quando as repostas são irrisórias frente às dúvidas.

Com o arrastar dos dias de confinamento, diversas atividades aparentarem ser uma forma de adaptação dos museus ao limbo da pandemia: as corridas virtuais. Inúmeros tours, lives, exposições e produção de conteúdos para “digitalizar” os museus fechados, buscando adequar uma determinada realidade a um contexto de emergência, com o foco no #VaiPassar. Aliado aos novos guias de protocolos de reabertura, com o maior de controle do acesso do público e a venda antecipada de bilhetes, temos os museus, em suas funções tradicionais, adaptados ao “novo normal”.

Parece-me aqui, porém, que essas práticas – sem tirar sua total relevância -, não correspondem às necessidades de uma realidade bem mais densa. Historicamente, os museus se consolidaram como os espaços das memórias nacionais. A acumulação de acervos, o conhecimento linear, a arquitetura não-convidativa.C om o decorrer do século XX, houve a luta pela democratização dos museus, porém, muitos modelos ainda se afirmam num “pensamento enciclopédico” e dependente das grandes filas de visitações.

Hoje, o mundo já não é o mesmo.  Tal como em momentos de abalos violentos, como o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a sociedade que irá emergir no pós-pandemia terá marcas profundas da incerteza, angústia e do medo. Um mundo de maior controle social e de desconfiança do novo são os horizontes possíveis. Como pensar as novas funções dos museus frente a tal contexto?

Que passado buscar? Os museus como espaços de afeto e novas políticas de memória

Considero aqui, que um dos termos principais para se pensar as novas relações no “novo normal”, será a empatia. A empatia como forma de recomeço, de como se perceber em relação ao outro. Ora, o museu pode (e deve) se destacar como um espaço essencial para se pensar os caminhos de novas formas de relações baseadas na empatia. O museu que se faz com o público, nos modos de interação e do compartilhamento do conhecimento, outrora centrado nos grandes acervos. Nas palavras de Mário Chagas (2019) - atual diretor do Museu da República, no Rio de Janeiro -, o museu que se faz como núcleo de saberes e afetos.

Esse, a meu ver, é o ponto central de se pensar o museu: um ambiente do afeto. Como lugares de memória, os museus são espaço da construção das identidades individuais e coletivas. Através do afeto, permite-se que os museus sejam também pontes, que criam interconexões e liguem margens, com o intuito de serem o espaço da solidariedade, da democracia e dos direitos humanos.

No contexto das rusgas deixadas pela pandemia, a presença do afeto e da solidariedade que o museu pode proporcionar também o dota de um papel terapêutico. Novamente de acordo com Mário Chagas, os diversos ambientes dos museus podem atuar como espaços de sensibilização, articuladores de conhecimentos, de encontros, de aproximações, de inspirações, onde todos e tudo podem e devem estar representado e em diálogo. As novas formas de imaginações museais inspiradas em práticas comunitárias e descentralizadas são exemplos que devem ter mais visibilidade nesse novo panorama. Práticas como as do Museu das Remoções e do Museu da Maré, nos prova como a violência enseja a união e a ligação da comunidade para com uma memória de resistência e de identificação dos moradores com seu território.

Inaugurado em 2006, o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, é um modelo de práticas de valorização e conexões de vínculos a partir da memória dos moradores que constituem o complexo da Maré. A participação da comunidade e a visão de dignidade social são os principais motes do Museu. (Fotografia: Naldinho Lourenço).
Inaugurado em 2006, o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, é um modelo de práticas de valorização e conexões de vínculos a partir da memória dos moradores que constituem o complexo da Maré. A participação da comunidade e a visão de dignidade social são os principais motes do Museu. (Fotografia: Naldinho Lourenço).

Penso também, que o tom terapêutico se encontra nas possibilidades de novas memórias e conexões a serem criadas com um passado a ser enfrentado após a Covid-19. O trauma e o sofrimento serão presentes por certo tempo na sociedade e lidar com isso é fundamental para reflexão das novas possibilidades no mundo que virá. O antes e o depois são essenciais para a construção da identidade coletiva. A função social do museu em relação a uma política de memória para evitar apagamentos criminosos por parte do Estado se faz necessária. Digo isto tendo em vista a cultura “memoricida” que o Brasil sustenta. Segundo o médico croata Mirko Grmek (1991), criador do termo, este é aplicável às intenções de destruição das memórias de vítimas de traumas. Um exemplo de resistência a tais “memoricídios” é o empenho da comunidade (alunos, professores, pesquisadores e frequentadores) do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em manter acesa sua memória nos percalços de sua reconstrução, após o incêndio de 2018.

O festival Museu Nacional Vive, que ocorre na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, busca promover a proximidade da população com a produção científica do Museu e o contato com o acervo que foi salvo do incêndio. Tal prática busca manter viva a memória do museu, sendo foco de resistência e esperança na sua reconstrução. (Foto Fernando Frazão/Agência Brasil).
O festival Museu Nacional Vive, que ocorre na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, busca promover a proximidade da população com a produção científica do Museu e o contato com o acervo que foi salvo do incêndio. Tal prática busca manter viva a memória do museu, sendo foco de resistência e esperança na sua reconstrução. (Foto Fernando Frazão/Agência Brasil).

 

 




Finalizo este artigo considerando os possíveis olhares diferenciados para os museus. Hoje suas portas se encontram fechadas, mas as sementes das mudanças do seu protagonismo germinam. Não no acervo, mas no público. Não a “adaptação” de um modelo clássico do Estado nacional, mas a abertura à mudança como o portal, não fronteira. O museu como possibilidade, como subjetividade, como direito de todos. Que venham os "novos museus” para um “novo normal”.

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