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Imbatível, Garotinho transforma PT em “Partido da Boquinha” e PSB em “Partido Sem Brizola”

Sucesso eleitoral do ex-prefeito de Campos e declínio de Leonel Brizola mexeram com cenário político fluminense nos anos 90 e 2000.

02/08/2020 07h04 Atualizada há 1 semana
Por: Arquivo Político
Nos braços do povo: Garotinho viveu o ápice da carreira política no PDT. (Foto: Agência O Globo)
Nos braços do povo: Garotinho viveu o ápice da carreira política no PDT. (Foto: Agência O Globo)

Natural de Campos dos Goytacazes, Anthony Matheus - o “Garotinho” foi adotado quando trabalhava como radialista - ingressou na política como membro de um movimento estudantil ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ele disputou seu primeiro pleito em 1982 como candidato a vereador pelo PT em seu município, mas não se elegeu. No ano seguinte, migrou para o PDT, que estava cada vez mais presente nos municípios fluminenses graças à popular liderança de Leonel Brizola, em seu primeiro mandato como governador. Na sigla, tornou-se deputado estadual em 1986, com mais de 30 mil votos.

A primeira grande virada política de Garotinho foi sua eleição como prefeito de Campos em 1988. Com a aprovação nas alturas, ganhou destaque nacional ao receber o prêmio de melhor prefeito do país e passou a ser tratado como uma liderança promissora de esquerda. Ao deixar o cargo, foi convidado por Brizola, na metade final do seu segundo mandato como governador, para assumir a Secretaria Estadual de Agricultura, Abastecimento e Pesca. A pasta garantia contato direto com prefeituras do interior, o que lhe ajudou a pavimentar um projeto ambicioso: a disputa pelo governo estadual em 1994. Acabou derrotado no 2º turno por um ex-filiado do PDT, o tucano Marcello Alencar.

No retorno à Campos, conquistou uma vitória acachapante no pleito de 1996 para a prefeitura, com mais que o dobro dos votos obtidos 8 anos antes. Incentivado pelos próprios eleitores, abandonou o mandato e disputou o governo estadual em 1998. Numa aliança costurada nacionalmente por Brizola e Lula, do PT, confiou a vaga de vice-governadora à então senadora Benedita da Silva. Eleito em 2º turno, com mais de 1 milhão de votos à frente do ex-prefeito da capital César Maia (PFL), Garotinho tornou-se a figura pedetista de maior sucesso eleitoral naquele período.

Tão logo assumiu a cadeira no Palácio Guanabara, em 1999, o novo governador viu seu próprio partido se opor às suas decisões. Leonel Brizola criticava abertamente a nomeação de Sérgio Zveiter, ex-presidente da OAB-RJ, como secretário de Justiça. O advogado defendeu intervenção federal no estado em 1994, quando o RJ enfrentava uma séria crise na segurança pública e um dos resultados foi a maior taxa de homicídios de sua história. Na época, já ao final do governo, Nilo Batista, do PDT, conseguiu apenas um convênio com o então presidente Itamar Franco (PMDB) para apoio militar.

Além disso, Brizola acusava Garotinho de beneficiar Benedita com diversos cargos, para que a vice se fortalecesse na disputa a prefeitura do Rio em 2000. No acordo nacional pela aliança PT-PDT, ela, por ter abdicado do cargo de senadora, seria candidata com apoio dos trabalhistas. Entretanto, Brizola, poucos meses depois, decidiu que seria candidato também.

Esse fortalecimento de Benedita causou ruídos na (já difícil) relação com o PT. Regionalmente, o partido de Lula preferia ter disputado o cargo de governador com a candidatura do ex-deputado federal Vladimir Palmeira, mas a direção nacional vetou. Assim, boa parte dos petistas não se empenhou na campanha de Garotinho, e a bancada formada pelo partido na Assembleia Legislativa era considerada independente.

Com a popularidade em alta e o desgaste de Lula e Brizola no cenário nacional, Garotinho começou a costurar uma possível candidatura presidencial. Fez uma ampla reforma administrativa em seu governo, para abrigar novos parceiros como o PMDB, e reduziu o espaço de aliados na máquina pública. O PT reagiu: travou pautas na ALERJ, ameaçou boicotar Benedita e indicou que iria para a oposição. Garotinho respondeu que o partido deveria mudar o nome para “PB, o Partido da Boquinha”.

Garotinho e Benedita no Palácio Guanabara. (Foto: Agência O Globo)

Brizola, por sua vez, reclamou de uma trapalhada causada pela nomeação de Carlos Lupi, ex-deputado federal e integrante da executiva nacional do PDT, à Secretaria de Transportes e, depois, para um cargo que não tinha função definida. Provocador, o líder pedetista disse que daria um crédito ao governador, a quem chamou de “um menudo” – nome dado aos integrantes do famoso grupo musical porto-riquenho - por ser muito jovem.

A briga continuou. Leonel demonstrava incômodo com a pública intenção de Garotinho em assumir o comando do PDT para “rejuvenescer” seu partido e prometeu “laçá-lo como fazia com os bezerros de sua fazenda no Uruguai”. O governador reagiu em uma reunião partidária, disse que “não seria um submisso, e sim um adversário”. Para mostrar que continuava no controle, Brizola, de fato, candidatou-se à prefeitura do Rio em 2000, assim como Benedita. Os dois, porém, ficaram para trás logo no 1º turno: ele, em quarto lugar com 9,10% dos votos; ela, em terceiro com 22,63%.

Na contramão do mau desempenho dos dois políticos, a aprovação do governo Garotinho chegava no mais alto patamar desde a posse: 62% de ótimo/bom, 24% regular e apenas 8% de ruim/péssimo, segundo o Datafolha. Além disso, seus aliados foram eleitos em diversos municípios da Baixada Fluminense. Ele não precisava mais do PDT, nem do PT.

“Já estamos no PSB, o partido sem Brizola”. Foi assim, num ato público na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), em novembro de 2000, que Anthony Garotinho colocava fim na sua trajetória de 17 anos no PDT e anunciava a possibilidade de ir para o Partido Socialista Brasileiro. Sua transferência ocorreu dois meses depois, já em 2001. Junto com ele, cerca de 11.000 fluminenses – dentre eles, 14 deputados estaduais, 5 federais e 33 prefeitos - pediram desfiliação do partido trabalhista.

Em 2002, Garotinho abandonou o governo para ser candidato à Presidência da República. Terminou o pleito em 3º lugar, com 17,86% dos votos. Benedita assumiu o comando do estado, a despeito de ter se tornado um novo desafeto de Garotinho, e tentou se reeleger, mas foi derrotada em 1º turno por Rosinha Matheus, esposa do ex-governador: 51,30% x 24,44%. Brizola também perdeu: em sua última eleição, amargou o 6º lugar na disputa pelo Senado.

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